Aquele domingo de maio

Na foto, Senna ergue o troféu de sua primeira vitória no Brasil. Uma corrida inesquecível em 6ª marcha. Foto: Wikipédia

Pra mim o Domingo durou um mês. Eu tinha 8 anos. Não sei dizer se foi na segunda, um dia após a morte do maior ídolo brasileiro dos últimos 30 anos, creio que tenha sido no sábado seguinte a morte.

O domingo foi duro. Uma falta de luz fez as imagens do acidente fatal só serem vistas horas depois. Eu acordei perguntei para o meu pai como tava a corrida. Me lembro que, sério, ele disse que Senna tinha batido. Minha pergunta foi como tinha sido. Meu pai tava preparando um churrasco. O domingo tinha um lindo sol, céu azul. Ele falou que o acidente tinha sido grave. As notícias que chegavam não eram animadoras. Minha mãe começou a rezar. Eu não queria acreditar.

A luz voltou e logo a TV Globo entrou com um plantão. Roberto Cabrini estava em Bologna, Itália, e anuncia a morte do mito. Eu não consigo mais ficar em casa, queria acordar do sonho ruim. Queria sair do torpor, queria coisas diferentes pra pensar. Mas minha cabeça de criança só pensava no ídolo. Demos uma volta pela cidade. Lembro que passamos na casa de um amigo do meu pai, já falecido, e o comentário foi: “Um cara jovem, com saúde, morrer desse jeito.” Eu queria esquecer.

Eu não lembro como foi o resto da manha. Não sei o motivo, as lembranças são confusas. Sei que todos desciam as escadas, eram as crianças do turno da tarde e os adolescentes do turno da manha. Durante aquela semana uma musica tocava e emocionava a todos. Não sei quem começou, como começou, só sei que todos cantavam um timido e sincero, Valeu Senna!

Foto: Wikipédia

Esse momento tá guardado na minha cabeça sempre que lembro da morte de Senna. Não é a curva fatal. O Muro. Ou Ímola. Tinha 8 anos. O primeiro título de Senna foi em 1988. Eu não tinha noção de nada. Em 1990 veio o segundo título. Em 1991 o terceiro, com uma corrida memorável no Brasil. Eu tinha Senna como algo imortal. E de fato o é.

Escrevo esse texto vendo vídeos para ilustrar esse post. São 5h 30 da manha, e várias vezes parei de escrever para limpar minhas lágrimas. Caráter, dedicação, fibra, solidariedade, orgulho. Algumas palavras que facilmente associo a imagem de Senna.

Ele teve enterro com honras de chefe de estado. O nosso último Grande Homem enterrado. O brilho do triste olhar de Senna é eterno. Que as novas gerações jamais esqueçam o mito. O Brasil é pobre e mesquinho.

Senna morreu em um final de semana trágico. Na Sexta-feira, Rubens Barrichello sai da pista e bate con violência. Roland Ratzenberg morre no sábado 30 de abril. Senna não queria correr, mas jamais Senna queria ser taxado de perdedor, fraco, coisas que a história dele mostram que ele nunca foi.

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