O pedido de desculpas de McAvoy e a imprensa brasileira

Estava vendo algumas críticas para a imprensa brasileira que está cobrindo o dia a dia da Operação Lava jato e suas fases e lembrei de um pedido de desculpas do fictício âncora do seriado The Newsroom. No terceiro Episódio da primeira temporada da série da HBO, Will McAvoy, interpretado por Jeff Daniels, pede desculpas por fazer um jornal mais focado em atingir as massas do que educá-la politicamente.

Leia o pedido de desculpas*:

Boa noite.

Eu sou o Will McAvoy. Este é o “News Night”, e aquele foi um vídeo do Richard Clarke, antigo chefe de contraterrorismo do Presidente George W. Bush, depondo ao Congresso em 24 de março de 2004. Os americanos gostaram daquele momento. Eu gostei daquele momento. Adultos deveriam considerarem-se responsáveis pelo fracasso. O fracasso desse programa durante o tempo que eu estivesse responsável por ele para vitoriosamente informar e educar o eleitorado americano. Deixe-me ser claro que eu não peço perdão em nome de todos os jornalistas, e nem todos os jornalistas devem um pedido de desculpas. Eu falo por mim mesmo. Eu fui um cúmplice de um lento, repetitivo, desconhecido e inalterado trem descarrilhado de fracassos que nos trouxeram ao agora. Eu sou um líder numa indústria que manipulou resultados eleitorais, agitou ameaças de terror, excitou controvérsias, e falhou a reportar mudanças tectônicas no nosso país. Do colapso do sistema financeiro às verdades sobre quão fortes nós somos aos perigos que de verdade enfrentamos. Eu sou um líder numa indústria que orientou mal a atenção de vocês com a destreza de Harry Houdini enquanto estava mandando centenas de milhares dos nossos mais bravos homens e mulheres jovens para uma guerra sem a devida diligência. A razão pela qual falhamos não é um mistério. Nós mergulhamos nas estatísticas. Na infantilidade de comunicações de massa, uma transmissão jornalística Colombo e Magellan, William Paley e David Sarnoff foram a Washington tentar um acordo com o Congresso. O Congresso autorizaria às inexperientes redes o uso ilimitado de canais possuídos por pagadores de impostos em troca de um serviço público. Este serviço público seria uma hora separada de tempo no ar todas as noites para uma transmissão informacional, ou o que chamamos de notícias da noite.

O Congresso, incapaz de antecipar a capacidade gigantesca televisiva, teria que entregar os consumidores aos propagandistas, falhando a incluir no negócio o único requerimento que teria mudado nosso discurso natural imensuravelmente para melhor. O Congresso esqueceu de adicionar que debaixo de nenhuma circunstância haveria propaganda paga durante o informe televisivo.

Eles esqueceram de dizer que pagadores de impostos te darão os canais televisivos de graça, e por 23 horas diárias você deveria gerar lucro, mas por uma hora a noite você trabalharia para nós.

E agora essas notícias da rede, ancoradas pela história, juro por Deus, homens de notícias com nomes como Murrow, e Reasoner, e Huntley, e Brinkley, e agora Buckley, e Cronkite, e Rather, e Russert — agora eles precisam competir com homens como eu. Um âncora de TV a cabo que está no mesmo negócio que os produtores de Jersey Shore. E aquele negócio foi bom para nós, mas o News Night está saindo dele agora. Pode ser uma surpresa para vocês que alguns dos maiores jornalistas americanos da história estejam trabalhando agora, mentes excepcionais com anos de experiência e devoção inabalável para anunciar as notícias. Mas essas vozes são uma minoria pequena agora e não têm uma chance sequer contra o circo quando o circo vem à cidade. Eles estão em menor quantidade. Eu estou abandonando o circo e trocando de time. Vou ficar com os caras que estão sendo espremidos. Eu estou tocado que eles ainda pensem que podem ganhar, e espero que possam me ensinar uma coisa ou duas. A partir deste momento, nós decidiremos o que vai ao ar e como é apresentado a vocês com base na simples verdade que nada é mais importante para uma democracia do que um eleitorado bem informado.

Nós nos esforçaremos para colocar informação num contexto mais amplo porque sabemos que poucas notícias nascem no momento que nós as encontramos em nosso radar. Nós seremos campeões de fatos e mortais inimigos da especulação, da sugestão, da hipérbole, do sem sentido. Nós agora somos garçons num restaurante servindo a vocês as histórias que pediram da forma como gostam que sejam preparadas. Também não somos computadores distribuindo somente fatos, pois notícias são úteis somente no contexto da humanidade. Eu não farei esforço para suprimir minhas opiniões pessoais. Eu farei todos os esforços para expor a vocês opiniões informadas que são muito diferentes das minhas.

Vocês podem perguntar quem somos nós para fazer estas decisões. Nós somos Mackenzie McHale e eu. A senhorita McHale é a nossa produtora executiva. Ela comanda os recursos de mais de 100 repórteres, produtores, analistas, técnicos, e suas credenciais estão prontamente disponíveis. Eu sou o editor do News Night e faço as decisões finais em tudo que é visto e ouvido neste programa. Quem somos nós para tomar estas decisões? Nós somos a elite da mídia.

Estaremos de volta após isto com as notícias.

Embora fictício e embriagado de idealismos, acredito que a reflexão seja válida. O jornalismo vive uma crise profunda de financiamento. Quem paga o jornal impresso? Quem banca o acesso ao site? Quem paga as contas no final do mês?

Em outro texto pedi honestidade aos veículos. Não foi necessariamente uma crítica aos já consolidados impressos que buscam no online a modernização necessária. A verdade não é absoluta. O pedido de honestidade era aos nascidos na internet, que buscam acessos atacando, deturpando a informação e tentando proteger interesses de quem lhes financia.

É preciso fazer um jornalismo mais analítico, mais amplo, mais contraditório, com mais profundidade e seriedade. Mesmo tendo que pagar as contas no final do mês. O público, que hoje ataca a imprensa, precisa também valorizar um produto de qualidade. Precisa entender que a manipulação só acontece quando se deixam manipular e que a omissão é muito pior.

Não é agredindo repórter em manifestações, não é invadindo transmissões ao vivo que se mudará a forma como esses veículos vão trabalhar. É buscando outras fontes que contextualizem tudo. Como bem disse McAvoy, “notícias são úteis somente no contexto da humanidade”. Qual jornal contextualiza as coisas? Qual veículo, hoje, faz uma análise profunda dos fatos? No fundo acho que somos todos ingênuos.

*Tradução de Raquel Reinke

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