O pior final de semana da Fórmula 1

O pior final de semana da Fórmula 1

Ímola, Itália. Grande Prêmio de San Marino de Fórmula 1.
Sexta-feira, 29 de Abril de 1994. 8h da manhã. Treino Livre.
Foto: Divulgação
Rubens Barrichello
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Antes de completar a curva, o carro nas cores branco, azul, verde e vermelho toca o limite da pista. Decola, atravessa o pequeno gramado e atinge a proteção de pneus. A roda dianteira direita é brutalmente arrancada. O carro é travado pelo resguardo, ficando na posição vertical. A cabeça do condutor atinge o volante com violência. A ápice do veículo atinge o solo, arrancando a grama violentamente. O carro segue desgovernado. Cai com a lateral direita, retirando ainda mais o tapete verde. O momento passa rápido, mas para quem vive a angústia da situação são horas.

A lateral destra é a primeira a encontrar a terra. O veículo acaba virando lateralmente por duas vezes. E para. A roda dianteira direita, outrora arrancada com violência, agora segue seu destino como se não soubesse que seu controlador está inconsciente. Fiscais de prova correm rapidamente para próximo do carro e acabam desvirando-o de uma maneira cruel. Logo chegam os médicos. Tudo deve ficar bem.

Dentro do automóvel está Rubens Gonçalves Barrichello. Brasileiro, 22 anos, paulista. Cinco vezes campeão nacional de Kart, considerado imbatível na época. Piloto com passagens pela Fórmula 3 inglesa e pela Fórmula 3000. Este é seu segundo ano na fórmula 1. Ao seu lado está Ayrton Senna, logo mais falarei dele.

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Rubens Barrichello em 2009 pela Brown.
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Barrichello está em seu 18º grande prêmio. Este será o seu mais sério acidente na categoria. Veja o que ele declara sobre o fato: “Para minha própria sorte, lembro muito pouco dos momentos do acidente, das duas capotadas e de como os fiscais em uma maneira completamente irresponsável viraram meu carro. Tampouco me recordo de como cheguei até o hospital com o diagnóstico de traumatismo craniano, fratura do braço direito, fortes contusões na coluna e do lado direito do tórax, fratura do nariz e contusões na face e na boca. No entanto, lembro muito bem de quem estava ao meu lado assim que eu recuperei meus sentidos: Ayrton Senna.”

Sábado, 30 de maio de 1994. 8h da manha. Treino Classificatório.

O carro com predominância em azul, quase roxo, não consegue contornar a curva e bate lateralmente no muro a cerca de 308 Km/ h e segue grudado no muro até este terminar. A imagem que aparece novamente para as câmeras de TV do mundo todo é de um carro bastante danificado. As rodas esquerdas foram arrancadas. A frente do carro está destruída. A roda traseira direita está quebrada. Ele está no meio de uma publicidade. Azul e branca, as cores que se imagina colorir o céu.

O carro roda, sem controle, e segue. A lateral, que ainda tem rodas, mostra-se parcialmente destruída. A cabeça do piloto está flexionada para a frente e para a direita. A imagem a seguir é a mais chocante e recebida pelo espectador sem aviso prévio. O carro tem seus intestinos expostos. O azul de outrora desapareceu. Temos uma grande placa amarela na diagonal com o talento. Este caído protegido por um policarbonato branco e vermelho. Os olhos rapidamente notam um detalhe cruel. Logo abaixo do capacete é visível algo branco. Sim, ali está o braço esquerdo. Não há mais sinal de vida.

O carro para, a cabeça faz um leve movimento. Os fiscais de prova correm para socorrer o piloto que chega a receber massagem cardíaca. Os médicos demonstram desespero. O corpo do piloto é retirado primeiro da pista em uma ambulância e, logo após o do circuito, em um helicóptero, nada mais pode ser feito.

Naquela curva estava Roland Ratzemberg. Austríaco nascido em Salzburg em 4 de julho de 1960. Construiu sua carreira no Japão e na Inglaterra. O ano de 1994 seria mágico para Ratzemberg, pois ele corria sua primeira temporada na Fórmula 1. Seu contrato era curto, teria cinco corridas para mostrar seu potencial. Prometera não danificar os carros da equipe, já que essa passava por sérias restrições financeiras. Mas tudo acabou na curva Villeneuve. O piloto faleceu ainda no autódramo, muitos dizem que instantaneamente, já que ele teve diversas fraturas no crânio e no pescoço.

Oficialmente, a morte do austríaco aconteceu oito minutos após a entrada do mesmo no Hospital Maggiore, em Bolonha, na Itália. Se a morte fosse confirmada ainda na pista, o evento deveria ser cancelado, evitando mais tragédias e ficando à disposição da investigação. Um pequeno fato chama a atenção. Ayrton Senna chega ao local do acidente e conversa com fiscais e médicos. Senna é um dos pilotos mais importantes da categoria. Estava abalado pelo acidente do brasileiro Rubens Barrichello, no dia anterior. O evento seguiu.

Domingo, 1º de Maio de 1994. 9h da manhã. Grande Prêmio de San Marino de Fórmula 1.
Foto: Divulgação
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Na primeira fila estão os dois principais pilotos da categoria: Ayrton Senna e Michael Schumacher. As duas principais equipes: Williams-Renault e Benetton-Ford. Era a terceira corrida da temporada e a terceira vez que Ayrton largava na dianteira. Antes de começar a corrida, Senna fez duras críticas à pista. As imagens do acidente que tirara Barrichello da disputa e, principalmente as que mataram Roland Ratzemberg. não saíam da memória do tricampeão mundial. Contrariado e preocupado, Senna foi para a pista, levando consigo uma bandeira Austríaca. Seria uma homenagem ao colega de profissão morto um dia antes.

Logo na largada, o piloto português Pedro Lammy atinge a traseira de J.J. Lehto. Este não conseguiu largar e ficou parado na sua posição. Lammy não conseguiu desviar e bateu. O carro de controle (safety-car) entra na pista. Nesse tempo, fiscais de prova limpam a pista para que a corrida prossiga. Na volta de número cinco os motores voltam a andar mais rápido e o safety-car deixa a pista. O fim recomeça.

Duas voltas depois, na mesma curva em que Nelson Piquet e Gerhard Berger sofreram sérios acidentes nos anos de 1987 e 1989. Na mesma curva em que a Simtek de Ratzemberg teve sua asa dianteira solta, o que ocasionou o acidente fatal.

Na “reta torta”, um carro com predominância em azul escuro e branco aparece na tela da televisão. A tamburello é traiçoeira, a Williams é mais. O voltante não consegue controlar as rodas. O carro tem uma leve tencionada, como se fosse efetivamente fazer a curva, mas estamos à 320 Km/h. A leve tencionada não tem muito efeito. A câmera acompanha. O carro toca o limite da pista, voa, passa a grama e a caixa de brita e desaparece no muro. Apenas um pneumático é percebido na imagem congelada. Milésimos de segundos depois ele reaparece no vídeo. A roda direita está suspensa no ar. Uma nuvem clara de fumaça e brita é levantada. O carro está completamente destruído. Ele desliza sobre a brita e atinge o verde. Arranca a grama e levanta a terra. Quase retorna a pista, mas ,desgovernado, acaba parando definitivamente na caixa de areia. O capacete amarelo chega a se movimentar, mas tomba. Tensão. O mundo para.

Foto: Divulgação
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Ayrton Senna era Brasileiro. Paulista, nascido em 1960. Tricampeão mundial de Fórmula 1. Canhoto, tinha um olhar triste. Estreou na categoria máxima do automobilismo mundial em 1984. Sempre correu com seus carros atrás do pódium e de seus ideais. Chegou a ganhar um GP em seu país com apenas uma marcha. Não tinha forças para levantar o troféu, mas o ergueu. Sinal de superação. Exemplo de dedicação e caráter, embora várias vezes tenha colocado o jogo limpo de lado para atingir seu objetivo: vencer. Dono de voltas históricas, de corridas memoráveis. De domingos felizes e inesquecíveis, até aquele primeiro de maio.

Senna transformou o domingo mágico em um domingo dos mais melancólicos já vividos pelo mundo inteiro. Ele entrou no carro como quem se despede. Minutos antes de bater o sinto, estava com as mãos apoiadas no aerofólio do carro, olhava o nada. Olhava para algum lugar que nem mesmo ele sabia. O macacão estava aberto. Uma camiseta branca com um desenho animado que o tinha como ídolo, assim como o mundo. Ídolo, herói, mito. Senna enterrou na curva o coração do Brasil, diria um jornal gaúcho na manhã da segunda-feira.

Segundo as investigações, inconclusivas até hoje, Ayrton Senna perdeu o controle do seu carro quando andava à 320 Km/h. A Barra da direção, já gasta segundo as investigações, rompeu-se. Senna não tinha como completar a curva, tentou freiar, mas estava em alta velocidade. Precisaria de mais espaço para que o choque não fosse tão violento. Após a forte batida, o pneu dianteiro direito acertou a cabeça de Senna. A suspensão que estava presa à roda perfura em 7 centímetros a testa, sobre o olho direito do piloto. Para o médico e amigo de Ayrton, Dr. Sid Watkins Senna, o brasileiro faleceu na pista, logo após o atendimento chegar. Para muitos ,Senna morreu ao desaparecer no muro, que ficou marcado com as cores de seu carro.

Rubens Barrichello via seu ídolo, o motivo de estar ali, dentro do cockpit morrer. A imprensa, grande inimiga de Senna, jogou, de maneira inescrupulosa, a responsabilidade de amenizar a dor da perda para as costas de um jovem de 22 anos. Rubinho acabou não respondendo as expectativas e sucumbiu em críticas.

A Fórmula 1 passou por mudanças. Senna reclamava do jogo sujo que acontecia nos bastidores. O dinheiro é o dono das vidas, o rei das situações. Senna não queria correr. Se a justiça italiana fosse mais ríspida, a corrida teria sido cancelada. Milhões de dólares perdidos, mas a vida, o bem maior, estaria preservado.

O acidente de Barrichello foi um alerta, a morte de Roland Ratzemberg, aos 34 anos, um aviso forte de que o mundo estaria prestes a chorar e sangrar a morte de Senna. A comoção foi mundial. O Brasil ainda não se recuperou daquele domingo. Ayrton Senna da Silva foi o último grande mito brasileiro a ser enterrado. O último grande homem de quem nos despedimos.

O domingo do espetáculo perdeu o brilho. O domingo ficou mais pobre sem Senna. O brasileiro, mais carente sem seu exemplo máximo de garra. Quando o motor de Senna silenciou, o mundo todo entrou em choque e apenas uma lágrima caiu.

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