“O Rock está virtualmente morto no Brasil”, dispara Lobão

Neto de gaúchos, João Luiz Woerdenbag Filho, 55, é um dos mais ativos artistas do rock nacional. Cantor, compositor, multi-instrumentista, apresentador e autor Lobão comentou nessa entrevista exclusiva sobre a sua ligação com o estado do Rio Grande do Sul, o cenário atual do rock brasileiro e também seu último disco Lino, Sexy & Brutal, além de falar um pouco de seu próximo livro O Manifesto do Nada na Terra do Nunca.

Com 39 anos de carreira Lobão está cada vez melhor. Com o disco Lino, Sexy e Brutal o cantor conseguiu atingir um nível em que poucos, ou ninguém, chegou no cenário nacional. “Eu sempre achei que a música tinha que espalhar emoções aterrorizantemente belas… pois bem, depois de 35 anos tentando, acabei de conseguir”, declara o grande lobo sobre seu disco mais recente.

Foi em Gramado que Lobão conheceu Herbert Vianna, e isso teria grandes consequências para sua carreira e na sua maneira de interpretar. Toda a confusão está explicada em seu relato biográfico. Foi também na Serra que o cantor iniciou um plano de fuga em 1989. Casado com a empresária gaúcha Regina Lopes, Lobão seguidamente passa os finais de ano em Cachoeira do Sul, e lá compôs algumas músicas de seu repertório. Empolgado com o sucesso de sua biografia ele descreve o que podemos esperar de seu próximo livro.

Foto: Rui Mendes
Foto: Rui Mendes

Confira a entrevista:

Simulações – Sua relação com o Rio Grande do Sul começa antes de conhecer a sua esposa, Regina, qual foi a passagem mais marcante pelo estado?

Lobão – Bom, meu vô materno era gaúcho e tenho muita história marcante pelo estado na minha vida.

Simulações – Em 1989 você precisou armar um plano de fuga para os Estados Unidos via Argentina passando pelo RS. Qual a lembrança mais marcante dessa viagem?

Lobão – Sair da Festa da Uva disfarçado e, de carro alugado chegar em Uruguaiana, conseguir passar na fronteira até Paso de Los Libres na Argentina pra prosseguir até Buenos Aires com o mesmo carro. A minha recepção em Paso de Los Libres foi a coisa mais surreal da viagem.

Foto: Rui Mendes
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Simulações – Depois de conhecer a sua esposa, seguidamente você veio passar o fim de ano em Cachoeira do Sul. A cidade já lhe inspirou em alguma canção? Qual mais marcou?

Lobão – Eu sempre trabalhava muito em canções nas minhas férias e lá surgiram canções como Universo Paralelo, Mano Caetano, A Flor do Vazio, Boa Noite Cinderela [Em homenagem à Cássia Eller], Tranquilo, Sozinha Minha.

Simulações – Você já teve contato com a música tradicionalista do Rio Grande do Sul? Qual a sua opinião sobre ela? Ela já lhe influenciou de alguma maneira?

Lobão – Tive sim. Acho bacana, mas não acredito que tenha absorvido alguma coisa na minha maneira de compor não.

Foto: Rui Mendes
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Simulações – Falando sobre rock gaúcho além do Cachorro Grande, tem alguma outra banda que tenha lhe chamado a atenção?

Lobão – O Brasil está passando por uma seca sem precedentes. O Rock está virtualmente morto em todo o país.

Simulações – Assim como o Ney Matogrosso você faz bons discos mas eles não são “comerciais”. Não há estilo, sem fracasso?

Lobão – Eles são tão comerciais, ou até mais do que os que tocaram em rádio. Eles apenas não tocam na rádio. Das Tripas Coração seria um mega hit se tocasse no lugar de Me Chama em sua época.

Foto: Rui Mendes
Foto: Rui Mendes

Simulações – Qual a principal diferença do rock de quando você começou para agora?

Lobão – Ele existia e era vivenciado nas ruas, nos teatros, na vida das pessoas.

Simulações – Que reflexos você vê hoje da briga que você travou com a indústria da música no começo da década passada?

Lobão – A indústria minguou e agora precisa que façamos parcerias com ela. Não podemos enxergá-la com vilão eternamente.

Simulações – Sobre o seu último disco, Lino Sexy & Brutal, o que mais consumiu seu tempo? Existe alguma faixa que tenha gostado mais?

Lobão – O que mais consumiu o meu tempo foi a mixagem, pois foi gravado em apenas um dia. Adoro A Balada do Inimigo, Vamos para o Espaço, Não Quero seu Perdão, Bambino, Canos [silenciosos], Ovelha Negra, Das Tripas Coração.

Foto: Rui Mendes
Foto: Rui Mendes

Simulações – Para encerrar, o que você pode contar sobre o livro Manifesto do Nada na Terra do Nunca que deve ser lançado nos próximos meses?

Lobão – É um livro que tem como insight a paralisia que se encontra o Brasil tendo como mantra, a semana de [arte moderna de] 22 com suas bandeiras da precariedade, a preguiça, a falta de caráter, do primitivismo da antropofagia. Da procrastinação da alegria carnavalesca, que penetraram fundo na índole, na alma, na cultura, música, poesia, política, maneira de ser, de falar e uma urgência em nos livrar desses cânones vagabundos o quanto antes.

A autobiografia de Lobão, 50 anos à mil, vendeu 150 mil cópias e foi indicada ao prêmio Jabuti. O cantor ainda lançou uma caixa com seus sucesso de 1981 a 1991, remasterizada por Roy Cicala, um dos melhores produtores e engenheiros de som do mundo, pelas mãos dele passaram John Lennon, Frank Sinatra, Elvis Presley entre outros. O livro Manifesto do Nada na Terra do Nunca deve ser lançado em março pela Editora Nova Fronteira.

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