Reportagem Especial: Os caminhos da preparação física

Por Rogério do Espírito Santo e Thales Barreto

Correr e ocupar os espaços dentro de campo hoje é fundamental em qualquer partida, não importa se é amistoso ou jogo decisivo. A qualidade técnica da equipe está intrínseca à velocidade em campo. Mas para fazer o coração do torcedor acelerar na arquibancada junto com a bola temos a equipe técnica da preparação física, que vem passando por grandes mudanças na forma de trabalhar nas últimas décadas, para mostrar o futebol que o torcedor quer ver. Entrevistamos feras da preparação física com atuação na dupla grenal, para você entender um pouco mais do treinamento dos atletas e quais foram os caminhos que resultaram no futebol de velocidade dos dias de hoje.

Quem não gosta de ver o Neymar, Lionel Messi? O futebol veloz desses e outros profissionais exemplares não vem apenas do talento fora de série, vem da exigência do futebol atual de preencher os espaços dentro de campo. É claro que esses craques sabem cumprir o dever como ninguém, mas a necessidade de formar uma equipe rápida, com atletas que sabem dar respostas tecnicamente qualificadas, é indiscutível. Portanto, não vale apenas para os ídolos do futebol, atletas de todos os níveis precisam aprender a desenvolver o atributo técnica associado ao potencial físico, para ter qualidade tática e dar bons resultados para a equipe e para a torcida.

Foto: Divulgação/ Grêmio

Ithon Fritzen, preparador físico campeão do mundo pelo Grêmio, diz que o futebol brasileiro sempre se caracterizou pela individualidade, pela criatividade, os dribles, as tabelas geniais, o mérito de resolver o jogo através dos seus talentos individuais. E isso era evidente, principalmente com as seleções do Brasil de 58 e 62, que tinham grandes craques como Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Zito. “Eram seleções que mostravam para o mundo que dificilmente o Brasil seria batido em campo”, conta Fritzen. E o mesmo talento do jogador brasileiro, que encantava o mundo, levou os europeus a pensar que mudanças precisavam acontecer. “Visando à copa de 66, os europeus chegaram à conclusão que, para vencer a seleção brasileira, era necessário criar novos métodos de preparação física, para tornar os atletas europeus mais competitivos, jogar com mais intensidade, correr mais nas partidas”, conta.

Os alemães encabeçaram essas mudanças. Segundo Ithon, buscaram no atletismo técnicas para criar novos métodos de preparação física no futebol. O Brasil percebeu essas novas perspectivas e também iniciou suas mudanças, implicando na transformação do ídolo do futebol para o atleta, que passou a depender dos treinos físicos e não mais apenas do seu próprio talento. “Foi à conscientização de que ele não era só jogador, mas sim um atleta também”, explica Ithon Fritzen. “Os jogadores foram entendendo, a mentalidade começou a evoluir. Na medicina desportiva surgiram novos estudos, novos exames, novos testes e os jogadores ficaram envolvidos nesse novo contexto no futebol. Tiveram de rever o comportamento dentro e fora de campo. O profissionalismo começou a crescer e também os valores dos contratos”, lembra. “Todos evoluíram, jogadores, técnicos e preparadores físicos e todos começaram a ser vistos como profissionais e remunerados como tal”, acrescenta.

A capacidade física associada às ações do jogador dentro de campo

Hoje a preparação física no futebol é integrada, diz Élio Carravetta, preparador físico do Internacional, que acaba de participar de evento sobre o assunto na China. “O físico por si só não garante uma boa performance a uma equipe. A metodologia de trabalho está associada cada vez mais às ações específicas do jogo ”, explica. Segundo Carravetta, o trabalho de base como corridas contínuas e funcional, tanto no período de preparação como de regeneração, continua sendo fundamental, porém, hoje, o trabalho físico de impacto está associado às ações motoras durante a partida. Isso ocorre porque hoje a preparação física no futebol se encontra em um período científico com base em uma perspectiva ecológica e cognitiva. “No momento que eu for treinar uma equipe no nordeste, eu respeito a configuração, a estrutura, a cultura daquela instituição, inserida naquele espaço cultural. Se eu for trabalhar uma equipe na Alemanha, eu vou respeitar a estrutura, a história, o contexto cultural da Alemanha e as características individuais dos jogadores que estão à disposição.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

A perspectiva ecológica completa os princípios da preparação física das equipes ao encontrar a perspectiva cognitiva, que se caracteriza por associar o físico com as ações motoras durante o jogo, segundo Carravetta. “O pensamento tem que estar associado às ações motoras, porque trabalhamos com humanos e os humanos pensam. E o futebol hoje depende da percepção, da cognição, do entendimento. O rendimento de uma equipe não é físico por si só. Ele é técnico, é tático, perceptivo, cognitivo, psicológico. E a demanda física está inserida nesse contexto.

A inteligência de dados e a personalização dos treinos

Segundo Rogério Dias, preparador físico do Grêmio, é preciso que o jogador chegue na frente do adversário. “Nós usamos dados para comparar o jogador com ele mesmo, com isso conseguimos individualizar os treinos”, conta. Aproveitando a inteligência de dados, Rogério Dias consegue em seu trabalho formar padrões de respostas de cada jogador para a intensidade dos treinos. Dessa forma se dá um entendimento mais profundo sobre como aproveitar melhor as potencialidades de cada jogador. “Um exemplo bem claro, o pós-jogo. O jogador vai fazer uma partida às 22hs. Nós criamos padrões para esse jogador com 24 horas de recuperação, 36 horas e 48 horas. Nesse período, nós realizamos avaliações para ver como é que ele está fisicamente”, relata Dias. A partir do resultado das avaliações ocorre o processo de tomada de decisão, adaptação ou personalização do treino para o jogador. “Caso ele não esteja recuperado, não vai para o próximo treino. Uns jogadores se recuperam de forma mais lenta outros de forma mais rápida e às vezes é preciso utilizar de suplementação especial, hidratação ou outro recurso.”, conta o preparador físico do Grêmio.

Paulo Paixão diz que encontra o equilíbrio entre o melhor que pode oferecer ao jogador e o potencial que o atleta deve atingir. Sobre as mudanças na área, Paixão diz que a necessidade de trabalhar as valências essenciais da preparação física, resistência, força e velocidade, não mudou. “Corem e funcional se trabalha desde a época medieval, o pessoal acha que é novo”, comenta. Porém, a forma de trabalhar hoje é ditada por ferramentas de mediação. “Hoje o computador apresenta um gráfico, eu sei se o jogador atingiu o que eu quero através da curva, antigamente você fazia a curva, desenhava a curva, era bem diferente”, conta Paixão.

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