Reportagem especial: Rivalidade Grenal e Torcida Mista

Nos dias 27 e 29 de abril e 2 de maio de 2015 o Conexão Grenal publicou uma série de matérias especiais sobre a torcida mista em jogos de Grêmio e Inter. Junto com os jornalistas Rogério do Espírito Santo e Fernando Sousa, entrevistei dirigentes de ambas as equipes além de torcedores, e órgãos de segurança pública.

Colorados e gremistas unidos para nocautear a violência no futebol

No domingo, 1º de março, e nos dias que seguiram, ocorreu algo surpreendente no noticiário esportivo brasileiro. Em vez de violentas brigas de torcidas, erros clamorosos de arbitragem e partidas de baixíssimo nível técnico, a imprensa deu destaque para uma notícia positiva: torcedores de Grêmio e Inter, reconhecidamente uma das maiores rivalidades do futebol mundial, haviam torcido lado a lado nas cadeiras do Estádio Beira-Rio.

A iniciativa, que uniu adversários e promoveu o espírito esportivo e a civilidade nas arquibancadas, foi repetida neste domingo, no primeiro duelo das finais do Gauchão, desta vez na Arena do Grêmio. Sem incidentes em ambas as jornadas, a “Torcida Mista” pode mudar a história do futebol dentro e fora de campo. Na primeira parte desta reportagem, saiba como tudo começou.

Apesar de habitar os mesmos pampas, dividir a mesma cuia de chimarrão e comer o mesmo churrasco aos domingos, até bem pouco tempo, a exemplo de outras torcidas no Brasil, gremistas e colorados pareciam não conviver no mesmo ambiente, sem que a indispensável e popular flauta viesse à tona. Porém, a rivalidade que fortalece o amor à camiseta, tão importante para os clubes, muitas vezes enfraquece o clima de convivência pacifica e a educação dentro e fora de campo. Ofusca o brilho do clássico, do poder que o Grenal tem de unir os gaúchos, sejam amigos, familiares ou mesmo desconhecidos, independente do time que torcem. Em 2015, a união entre os gaúchos na hora de torcer ganha força com a torcida mista, que dá exemplo de projeto de educação nos estádios para o Brasil e para o mundo.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal
Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

Insatisfeito com os rumos do futebol e do clássico Grenal, Alexandre Limeira resolveu transformar uma ideia, um sonho, em um projeto. O vice-presidente administrativo do Internacional começou a idealizar e pensar como seria ter uma torcida mista nos estádios. O que precisaria ser feito. O primeiro indicador de que o sonho poderia se tornar realidade foi o Caminho do Gol, na Copa do Mundo.

Diferentemente das especulações, que previam um clima de guerra e conflito entre os torcedores mais entusiasmados das seleções mais tradicionais, o Caminho do Gol mostrou um clima de festa. Segundo Limeira, muitos torcedores rivais andavam juntos, comemorando a oportunidade de ver seus times jogando, sem nenhum atrito. Também muitos colorados e gremistas, vestidos com as camisetas dos clubes, andavam juntos ou eram vistos fazendo churrasquinho nas esquinas, antes das partidas, sempre em clima de amizade e confraternização.

Conhecedor do comportamento dos torcedores, não só no Rio Grande do Sul, mas também em outras capitais do país. Limeira viu no Caminho do Gol e na Copa do Mundo uma oportunidade para colher perguntas e respostas para o projeto da torcida mista. Outra fonte de pesquisa e análise foi o jogo Lance de Craque, organizado pelo jogador D’alessandro.

Em dezembro de 2014, o evento contou com a participação de 35 mil torcedores. “Era possível ver torcedores do Grêmio e do Inter juntos tranquilamente, conversando, vibrando”, conta Limeira “Nessa ocasião não tínhamos o mar de pessoas do Caminho do Gol na Copa do Mundo, não tínhamos argentinos, alemães, holandeses. Eram só gaúchos E isso me fez ver que seria possível fazer a integração no estádio só com os nossos torcedores”, acrescenta.

Do sonho ao projeto da torcida mista

Na primeira parte da matéria sobre a torcida mista mostramos como foi amadurecer a ideia e acreditar que seria possível a realização de um Grenal com uma única torcida para colorados e gremistas. Nesta segunda etapa da matéria entenda o que foi necessário fazer para tornar o sonho realidade e dar exemplo para outras torcidas em nível global.

Segundo Limeira, “não adianta trabalhar no nível das ideias. Para realizar é preciso ter um projeto em mãos”, diz o vice-administrativo do Internacional. A Copa do Mundo e o jogo Lance de Craque foram ferramentas para reforçar a crença de que seria possível unir gremistas e colorados em uma mesma torcida. Seria possível promover a amizade, a boa convivência entre as torcidas e a paz nos estádios, dando o exemplo para o Brasil e para o mundo. Concretizar esse sonho não vem do entusiasmo e sim do trabalho sério de pessoas que entendem de futebol, do comportamento do torcedor e também do papel do esporte na construção da cidadania.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal
Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

Sabendo que seria exigido pela Promotoria do Torcedor e pela Brigada Militar, Limeira estudou todos os passos dos torcedores. A tarefa de mostrar que a torcida mista não era só uma ideia e sim um projeto perfeitamente possível de ser realizado não foi nada fácil. Limeira não perdeu a convicção em nenhum momento. Estudou todos os detalhes, o horário de chegada dos torcedores, como seria a venda de ingressos, a separação interna, o serviço de bar, o relacionamento com patrocinadores, com a imprensa. Tudo precisava ser pensado nos mínimos detalhes.

“É viável aplicar a torcida mista em qualquer lugar, até em um Boca e River, mas é preciso ter um projeto, não apenas uma ideia”, diz Limeira. “No futebol brasileiro nós vemos os clubes trabalhando com ideias e não com projetos, por isso as coisas não acontecem”, observa ele.

“A ideia foi sendo amadurecida pelo Internacional”, relata José Seabra Mendes Júnior, da Promotoria do Torcedor do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Segundo o promotor Seabra, houve uma significativa contribuição da Federação Gaúcha de Futebol, da Brigada Militar, da EPTC, dos clubes e da própria promotoria para a realização da torcida mista. “A Promotoria do Torcedor atua na prevenção da violência nos estádios. Antes do Grenal da torcida mista nós realizamos reuniões com as torcidas organizadas com o objetivo de acertar a logística de entrada e saída das torcidas visitantes, além de reuniões com todas as entidades envolvidas”, conta Seabra.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal
Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

“Inicialmente a ideia causou surpresa, mas a Brigada Militar não poderia ser contra uma ideia que traz de volta um ambiente de harmonia, de civilidade e paz nos estádios”, conta o Tenente-Coronel Mario Yukio Ikeda, Comandante do Comando de Policiamento da Capital. “Em todos os eventos nós temos reuniões com os órgãos envolvidos e com as torcidas organizadas. Nós tínhamos que ter cuidado com o Caminho do Gol e com a torcida mista, por isso havia uma grande preocupação”, acrescenta o Cel. Ikeda. “A responsabilidade de todos os órgãos envolvidos no Grenal da torcida mista foi amplamente discutida”, diz.

Vitória da competitividade com ética

Na parte final da matéria sobre a torcida mista temos o desfecho de todo um trabalho que foi encarado com seriedade desde o começo. Um sonho que se concretiza e traz uma inovação positiva para o futebol brasileiro. Perde a violência nos campos, ganha a educação, a boa convivência, a competitividade saudável e a ética no esporte.

O Grenal da torcida mista superou expectativas. “Foi um exemplo de convivência”, diz Alexandre Limeira, vice-administrativo do Internacional. “Funcionou melhor do que nós tínhamos planejado. O Caminho do Gol teria uma área cercada no Viaduto Dom Pedro I, para ficar só a torcida mista. Não precisou fazer essa separação. As pessoas tiveram uma interação”, conta Limeira. “Circulei pelo Caminho do Gol com a EPTC e fiz fotos. Todas as pessoas estavam imbuídas de um clima de pacifismo”, relata o Promotor Francisco Seabra, da Promotoria do Torcedor do Ministério Público. “Até pessoas que não estavam indo no jogo andavam juntas no Caminho do Gol, para confraternizar e ver a banda da Brigada Militar tocar”, acrescenta Seabra.

O pensamento pessimista e de rivalidade, a resistência das correntes que acreditam não ser possível unir colorados e gremistas caíram por terra. Para Limeira, o Grenal é de todos. As pessoas estavam incomodadas com o domínio de uma minoria que prega rixas e brigas, por isso o projeto da torcida mista ganhou repercussão da comunidade nas redes sociais e na imprensa. E agora a torcida mista passa de um projeto incerto para toda uma nova visão que relaciona futebol com educação e responsabilidade social. Limeira acredita que, mais do que unir torcedores, a torcida mista é uma mensagem educacional.

“Nós podemos fazer ações junto às secretarias de educação municipais e estaduais e trazer estudantes em todos os jogos do campeonato gaúcho e brasileiro. Podemos disponibilizar mil ingressos em cada jogo para estudantes e chamar as escolas no microfone”, diz Limeira. Segundo ele, com a experiência da torcida mista, os estudantes podem debater nas escolas questões como tolerância e convivência. “O comportamento vem dos exemplos. E que exemplo estavam recebendo essas crianças sobre os colorados versos gremistas? Sobre o estádio. Elas estão recebendo uma bagagem de intolerância, revanchismo e brigas, e isso não é o certo”, aponta Limeira.

Para o dirigente do Internacional é preciso mostrar que nós temos uma rivalidade sadia e forte. O colorado tem que querer ganhar do gremista e o gremista tem de querer ganhar do colorado, mas isso não significa que não possam andar juntos, que sejam inimigos. “É preciso trazer isso desde a base, desde a escola. Essas crianças vão conviver entre colorados e gremistas a vida toda, mas não significa que não possam criar laços de amizade”, diz Limeira, que cita as ações contra o bullying e coloca o futebol na mesma linha de raciocínio. Para ele, as crianças precisam ser ensinadas sobre convivência através do futebol e a torcida mista pode ser uma ferramenta para essas ações.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal
Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

Para Marcelo Jorge, Diretor de Operações da Arena do Grêmio, o conceito da torcida mista é um exemplo de civilidade e respeito ao próximo. “É uma demonstração de que é possível que torcedores rivais deixem a rivalidade para trás e venham juntos torcer lado a lado pelos seus times, sem brigas, sem confusão, de forma mais segura e confortável. É uma atração a mais para que o torcedor venha para o estádio”, diz.

“Nós temos torcedores colorados e gremistas em uma mesma família que antes não vinham juntos ao estádio, agora com a torcida mista isso é possível”, comenta. Sobre a proposta de fazer da torcida mista uma ferramenta de ações sociais, Marcelo Jorge diz que a Arena do Grêmio está aberta a tudo o que seja favorável ao torcedor. “O que move o futebol é a torcida. A torcida é a principal atração. Sem a torcida o futebol não seria possível. Toda a proposta que faça com que o torcedor compareça de forma massiva ao estádio com certeza será tratada com carinho aqui na Arena”, afirma Marcelo Jorge.

Identificar e punir os violentos

Segundo Alexandre Limeira, os cinco indivíduos que brigaram no jogo entre Inter e Emelec estão proibidos de entrar nos estádios. “É preciso identificar os baderneiros e retirar dos estádios”, diz Limeira. “Nós tivemos 2 mil colorados e gremistas sentados lado a lado e não tivemos problemas. Aí nós temos um grupo de gremistas que causam problema.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal
Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

Essa minoria precisa ser retirada dos estádios”, destaca. José Segala, diretor da Camisa 12, há 25 anos na torcida organizada do Internacional, diz que hoje existe um trabalho junto aos órgãos fiscalizadores do futebol, como a Brigada Militar e a Promotoria do Torcedor. “Nós temos um cadastro dentro do BOE com o nome dos integrantes da torcida, onde moram, a profissão que exercem. No sul melhorou muito o trabalho com as torcidas organizadas”, conta. “Nós somos adversários dentro de campo e não inimigos”, diz Segala.

Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal
Foto: Thales Barreto/ Conexão Grenal

No Grêmio, na torcida organizada Velha Escola, o propósito é o mesmo. “Nós temos um trabalho com o Ministério Público e com a Brigada Militar”, conta Marcelo Bittencourt, Líder da Velha Escola. Marcela destaca o trabalho de escolta do BOE no Grenal da torcida mista no Beira Rio. “Foi o melhor trabalho que eu vi em 20 anos”, diz. “Há dois anos e meio nós fazemos um trabalho de conscientização para procurar evitar qualquer tipo de conflito. Isso não faz bem para a imagem do clube”, conta Marcelo. Sobre a torcida mista, Marcelo diz que é contra. Para ele prevalece a tradição de rivalidade. “Não há possibilidade de unir gremistas e colorados. Isso é utopia. Eles querem acabar com o clássico”, opina Marcelo.

As penalidades são desde a proibição de entrar nos estádios até utilizar tornozeleira eletrônica. Segundo Seabra, a Promotoria do Torcedor do Ministério Público tem primado pelo trabalho preventivo. A repressão da violência nos estádios é um dos pontos abordados. “Atualmente nós temos cerca de 50 torcedores entre gremistas e colorados que estão proibidos de frequentar os estádios, alguns por conta de condenação judicial, outros por conta de cautelar e outros ainda por transação penal”, afirma Seabra. De acordo com o promotor, há um sistema desenvolvido pela Promotoria em colaboração com o judiciário, no sentido de zelar para que os torcedores punidos não retornem aos estádios no período de suspensão. “A Promotoria elabora uma lista atualizada dos torcedores suspensos, encaminha essa listagem a CBF e a Federação Gaúcha para publicação dos nomes no site. Mandamos também para o clube, no caso de sócio, a carteira é bloqueada para que ele não tenha acesso, assim como pelo CPF o clube não permita que ele adquira ingressos com a sua identidade”, diz.

Além das medidas junto ao clube e às entidades esportivas, os torcedores penalizados precisam prestar contas sobre a determinação da justiça nas delegacias. “O torcedor punido tem de se apresentar na hora do jogo na delegacia da sua cidade. Nós estabelecemos um período, que varia entre meia hora e uma hora, antes de cada partida, para que o torcedor se apresente. Ele tem de permanecer na delegacia durante todo o jogo e até meia hora, uma hora depois de terminada a partida”, explica o promotor Seabra.

Em caso de descumprimento, isso é imediatamente comunicado ao juiz. O torcedor pode ter uma medida cautelar concedida pelo juiz ou agravar uma cautelar já determinada. “Nós temos cerca de 15 torcedores que estão portando tornozeleira eletrônica por ter descumprido uma medida judicial anterior e até alguns casos de torcedores que chegaram a ser presos por conta do descumprimento”, diz. Segundo o promotor, com isso está se mostrando que o ambiente de impunidade não está mais vigorando. O judiciário e o Ministério Público estão atentos à fiscalização das infrações cometidas pelos torcedores.

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