Um ano sem Chorão: Não fure os olhos da verdade

Demorei um ano para escrever esse texto. Acho que hoje, 12 meses após a morte do líder da banda Charlie Brown Jr, podemos falar da importância dela para o rock nacional e no legado deixado pelo autor de dezenas de hits que embalaram uma geração.

Chorão foi encontrado morto em seu apartamento na quarta-feira dia 06 de março de 2013. Os exames de necropsia indicariam que o cantor morreu devido uma overdose de cocaína. Alexandre Magno Abrão tinha 42 anos quando foi encontrado caído, já sem vida, na cozinha de uma cobertura na zona oeste de São Paulo. A banda que ele liderava acabara de divulgar o single Meu Novo Mundo, do disco La Familia 013.

Para falar do Charlie Brown é importante ver o momento em que a banda surgiu, já na segunda metade da década de 1990. Nessa leva apareceram grupos como O Rappa, Planet Hemp e Raimundos. Estávamos no auge do pagode/ axé que dominaram a década. Grandes bandas de 1980 sofriam para conseguir espaço nos principais veículos do país. Capital Inicial, Ira!, Kid Abelha, Lobão, Ultraje a Rigor estavam sufocados pela onda “rebolante”.

Charlie Brown Jr estoura nas rádios em 1997 com O Côro vai comer do álbum Transpiração continua e prolongada. Nesse mesmo disco temos mais outros seis hits, entre eles Tudo que ela gosta de escutar e Proibida pra mim (Grazon). Rivalizando com Raimundos pelo posto de maior banda do país é lançado o segundo disco Preço Curto, prazo longo. A faixa que abre os trabalhos é Confisco, uma das clássicas da banda santista. Zóio de Lula, Te levar daqui, O Preço e Não deixe o mar te engolir viram os novos hits do grupo.

Em 2000 é lançado Nadando com os tubarões. A disputa saudável com os Raimundos segue e no disco canções que seriam imortalizadas pelo estilo inconfundível de Chorão. Destaque para Rubão – O dono do Mundo, um sucesso retumbante. No ano seguinte é colocado no mercado 100% Charlie Brown Jr – Abalando a sua fábrica. O disco é recheado de sucessos como Hoje eu acordei feliz, Sino dourado e Como tudo deve ser. Nesse mesmo ano Rodolfo Abranches anuncia sua saída do Raimundos após sua conversão religiosa. Sem seu vocalista a banda acaba perdendo espaço no mercado fonográfico.

Bocas Ordinárias, de 2002, é a consagração de Chorão e sua turma. O disco faz um sucesso estrondoso consolidando o Charlie Brown como a banda de rock mais importante do cenário musical naquele momento. Aproveitando o período especial a banda grava um Acústico MTV. Após a fase mágica com o unplugged algo estava diferente com a trupe liderada por Alexandre. Tamo aí na atividade, disco de 2004, é o último realizado com a formação original – lembrando que Thiago Castanho havia saído em 2000 e retornaria a banda em 2005.

Entre 2005 e 2013 o CBJr lançou mais cinco discos e diversos sucessos. Depois de desentendimentos com Marcão e Champignon, e o retorno deles para a banda, Chorão é encontrado morto deixando um disco de inéditas em fase de finalização. Nesse período turbulento pós-Acústico são encontradas as músicas mais poéticas de Alexandre. Ainda na formação original temos as belíssimas Longe de Você e Lixo E O Luxo. Uma criança com o seu olhar está em Ritmo, Ritual e Responsa, de 2007. No álbum seguinte encontramos Só os loucos sabem, uma das músicas mais marcantes da última fase do Charlie Brown. Em La Familia 013 duas canções comoventes: Um dia a gente se encontra e Meu novo mundo.

Chorão foi a voz e a poesia de uma geração a sua maneira, seguindo o seu estilo. O poeta Mário Quintana disse uma vez que “a poesia não se entrega a quem a define”, tentar desvalorizar a poesia de Alexandre é calar uma geração inteira. Se Cássia Eller é lembrada como uma das maiores interpretes desse país, é preciso também colocar Chorão ao lado de Cazuza e Renato Russo como um dos maiores poetas do Rock nacional.

Ah! Para finalizar acho necessário só mais uma observação. Chorão tinha controle total do seu público. Tive a sorte de ir em sua última apresentação em Porto Alegre, em 2012, no Opinião. Lá senti ao vivo o que já havia acompanhado pela televisão. No palco ele estava em casa e o público era seu amigo mais íntimo. A originalidade do “Marginal Alado” faz muita falta para seus seguidores.

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