“Agora você vai ouvir aquilo que merece” – Loucura – Adriana Calcanhotto canta Lupicínio Rodrigues

Voltar a escrever sobre música é um prazer. É sinal de que as coisas estão, lentamente, voltando para o lugar. Escrever sobre Lupicínio é uma obrigação. Ainda mais que a Daiane comentou que rolou uma homenagem para ele no The Voice, da TV Globo. Vou falar de um disco que eu me apaixonei, mesmo não gostando muito da cantora.

Loucura, da Adriana Calcanhotto é uma obra incrível. Vários cantores já gravaram Lupicínio. Talvez a pior versão seja o disco do Thedy Correa, líder do Nenhum de Nós. Uma releitura horripilante. O disco do Arrigo Barnabé com a obra do Lupi é um espetáculo. A versão dele para Caixa de Ódio é sensacional. Também preciso citar as gravações de Jamelão.

O disco da Adriana Calcanhotto é de 2015 e foi gravado em Porto Alegre, no Salão de Atos da UFRGS. Saiu em CD e DVD, e está disponível nas plataformas digitais. A obra do Lupi já seria imortalizada com a feitura do Hino do Grêmio.  Ele não precisava escrever mais nada e já seria o maior compositor da música brasileira.

Todavia ele escreveu. Loucura abre com Homenagem. “Eu agradeço estas homenagens que vocês me fazem/ Pelas bobagens e coisas bonitas que dizem que eu fiz/ Receber os presentes, isto eu não tenho coragem/ Vão entregá-los a quem de direito deve ser feliz”. A coisa esquenta mais para frente quando ele cita a outra. Coisas da vida.

O disco segue com Ela Disse-me Assim. Essa é uma música sensacional. “Ela sofre somente por que/ Foi fazer o que eu quis/ E o remorso está me torturando/ Por ter feito a loucura que fiz/ Por um simples prazer/ Fui fazer meu amor infeliz”. O Arrigo Barnabé destaca o “simples prazer” desse trecho da música. Que letra!

A faixa seguinte é a que dá nome ao disco. Eu não sei qual trecho dessa canção destacar.  Separei dois, mas poderia ter colocado a letra inteira aqui. “Como é que existe alguém/ Que ainda tem coragem de dizer/ Que os meus versos não contêm mensagem/ São palavras frias, sem nenhum valor”

Faça ela voltar de novo pra meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salve o seu mundo com a minha dor”

Loucura – Lupicínio Rodrigues

Castigo é a quarta faixa do álbum. “E eu lhe agradeço por de mim ter se lembrado/ Dentre tanto desgraçado que em sua vida passou”. Lupi é um passivo-agressivo sensacional. É a dor de cotovelo em sua plenitude. Esse cara tem uma obra incrível. Seguindo o Castigo, temos Vingança. Talvez a segunda maior música do Lupi, perdendo só para o Hino Nacional, digo, do Grêmio.

Vingança talvez esteja entre as músicas mais regravadas do Lupicínio. É de uma força imensa. Outra letra que cabia toda ela aqui fácil. “O remorso talvez seja a causa/ Do seu desespero/ Ela deve estar bem consciente/ Do que praticou (…) Ela há de rolar qual as pedras/ Que rolam na estrada/ Sem ter nunca um cantinho de seu/ Para poder descansar”.

Seguindo a postura passivo-agressiva do Lupi, Cadeira Vazia é uma das composições mais deliciosas de seu portfólio. Recebe com solidariedade aquela mulher que machucou o seu coração, porém ela não deve esperar mais do que um abrigo e alimento.

Voltaste, estás bem, estou contente
Mas me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão”

Cadeira Vazia – Lupicínio

Lupicínio nasceu em 1914 e faleceu em 1974. É preciso registrar o período em que viveu para contextualizar sua obra. Não dá para cobrar uma mentalidade de 2021 em um compositor que faleceu em 1974. A próxima música é Quem Há de Dizer.

A canção versa sobre o amor do cantor por uma moça do cabaré. Em um trecho ele diz “O cabaré se inflama/ Quando ela dança/ E com a mesma esperança/ Todos lhe põe o olhar/ E eu, o dono/ Aqui no meu abandono/ Espero morto de sono/ O cabaré terminar”.

Esse “dono” me incomoda, mas o contexto é um pouco diferente. No final da canção ele fala “Ela nasceu com o destino da Lua/ Pra todos que andam na rua/ Não vai viver só pra mim”. Isso dá uma equilibrada na canção.

A faixa seguinte é Nervos de Aço. Outro grande sucesso do Lupicínio. Regravada inúmeras vezes e de uma força imensa. “Há pessoas de nervos de aço/ Sem sangue nas veias e sem coração/ Mas não sei se passando o que eu passo/ Talvez não lhes venha qualquer reação (…) Eu não sei se o que trago no peito/ É ciúme, é despeito, amizade ou horror/ Eu só sinto é que quando a vejo/ Me dá um desejo de morte ou de dor”.

Que sequência! Abriu com Nervos de Aço, segue com Esses Moços, outro clássico do Lupi, avança com Volta, Nunca e Judiaria. Aliás. O disco inteiro é uma sequência espetacular de clássicos do Lupi. Dava para colocar a letra inteira de Esses Moços. O trecho escolhido foi esse: “Eu também tive nos meus belos dias/ Essa mania e muito me custou/ Pois só as mágoas que trago hoje em dia/ E estas rugas o amor me deixou”.

Volta tem uma letra pesada demais para eu comentar nesse momento. Ela é linda e deve ser ouvida. Só isso. Nunca. Nem que o mundo caia sobre mim. Nem se Deus mandar, nem mesmo assim, as pazes contigo eu farei. A letra de Nunca é outra pancada. É para se ouvir de joelhos aos prantos. “Saudade/ Não esqueça também de dizer/ Que é você que me faz adormecer/ Pra que eu viva em paz”.

Quantas noites não durmo
A rolar-me na cama,
A sentir tantas coisas
Que a gente não pode explicar
Quando ama?”

Volta – Lupicínio Rodrigues

A próxima faixa é Judiaria. Lembro que uma vez estava assistindo o começo do filme Bicho de Sete Cabeças, com o Rodrigo Santoro, Othon Bastos e grande elenco. Um filme espetacular. E no começo o protagonista, Santoro, escreve uma carta pro pai, Bastos, e é um trecho estilizado de Judiaria, do Lupi. “Estas palavras que eu estou lhe falando/ Têm uma verdade pura, nua e crua/ Eu estou lhe mostrando a porta da rua/ Pra que você saia sem eu lhe bater”.

Outra música bastante conhecida do Lupicínio é Felicidade. É uma letra bonita, embora eu prefira aquelas que o Lupi enfia a faca e gira lentamente. Felicidade é uma música alegre demais para ser do Lupi. Se Acaso Você Chegasse ganhou uma voz. Elza Soares. É um samba animado que também não é das minhas preferidas.

Cevando o Amargo não é uma das músicas mais conhecidas do Lupi, eu confesso que não conhecia. Ela encaminha para o final do disco. Depois temos o Hino do Grêmio. Bom, eu preciso falar mesmo do Grêmio ou vocês já entenderam os recados dados durante o texto?

Até a pé nós iremos
Para o que der e vier
Mas o certo e que nós estaremos
Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”

Hino do Grêmio – Lupicínio Rodrigues

O disco quase termina com o Hino nacional, digo, do Grêmio. Temos um extra. Cenário de Mangueira. Um samba sobre a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Um bom samba remetendo bem ao Rio de Janeiro.

Lupicínio foi imenso. A obra dele é bem retratada nesse disco da Adriana Calcanhotto. Ainda dá para destacar o ótimo Elza Canta Lupi. Disco não está nas plataformas digitais, mas está inteiro no canal oficial da Elza no YouTube.

Vou deixar o link na sequência e citar algumas composições que estão nessa obra e não apareceram em Loucura, da Adriana. Exemplo é a canção que abre o disco que ainda tem Vou Brigar com Ela, Amigo Ciúmes, Caixa de Ódio e Eu Não Sou Louco. Vale a pena ouvir o disco da Elza.

Outro disco/ DVD que traz a obra de Lupicínio em grande estilo é o Caixa de Ódio – O Universo de Lupicínio Rodrigues, de Arrigo Barnabé. Eu busquei por algum link para o DVD, o máximo que encontrei foi a participação do Arrigo no Ensaio, da TV Cultura. Eu deixo aqui a interpretação dele para Caixa de Ódio.

Eu não iria comentar a letra de Caixa de Ódio, só que ela é espetacular. “Fazer do meu peito uma caixa de ódio/ Com um coração que não quer perdoar”. Ele pode perdoar, ele sabe, mas ele não quer. Isso é Lupicínio na veia. Façam como eu fiz enquanto escrevia o texto. Se ajoelhem e chorem ao som do Lupi. E uma boa semana.