“Boemia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição” – 50 anos de Boemia – Nelson Gonçalves

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Nelson Gonçalves é uma das maiores vozes da música brasileira. Ele também é um dos maiores vendedores de discos do país. Gaúcho de Santana do Livramento, Nelson nasceu em 21 de junho de 1919 e faleceu em 1998. Sua carreira começou em 1941 e se encerrou apenas com a sua morte. A história do Nelson é imensa e pode ser encontrada no livro Nelson Gonçalves, O Eterno Boêmio e no documentário Nelson Gonçalves.

Escolher um disco só para falar da trajetória do Nelson é uma missão bem complicada. O homem gravou de tudo. Tem disco só com canções de Noel Rosa, tem disco de tango, de seresta, tem samba e tem disco com regravações de músicas do rock dos anos 1980.

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Aliás, Nelson fez parceria com todo mundo. Lançado em 1987, o disco Nós apresenta parcerias com Milton Nascimento, Zizi Possi, Nana Caymmi, Lobão e Chico Buarque. Num anterior, lançado em 1985, tinha parceria com Tim Maia, Martinho da Vila, Caetano Veloso, Fagner e Luiz Gonzaga.

Enfim, a discografia do Nelson Gonçalves é imensa. Mesmo assim escolhi aquele disco que eu mais gosto/ ouço dessa discografia. Hoje vou comentar sobre 50 anos de Boêmia. Gravado ao vivo no Olympia, em São Paulo, nos dias 02 a 05 de novembro de 1989. O álbum foi lançado pela BMG – Ariola

Com participações especiais de Rafael Rabello e Caçulinha, o disco mostra o Nelson em forma, com a voz em dia, mesmo ele não sendo lá mito cuidadoso com seu instrumento de trabalho. O disco abre com Dos Meus Braços Tu Não Sairás, composta por Roberto Roberti. Caminhemos, de Herivelto Martins, e a segunda música do disco.

Fica comigo esta noite
E não te arrependerás.
Lá fora o frio é um açoite;
Calor aqui tu terás.

Fica Comigo Esta Noite – Nelson Gonçalves

A terceira faixa é Meu Vício é Você, composta por Adelino Moreira. Olha esses dois trechos: “Boneca, eu te quero com todo pecado/ Com todos os vícios, com tudo, afinal/ Eu quero esse corpo que a plebe deseja/ Embora, ele seja prenúncio do mal (…) Boneca vadia de manha e artifícios/ Eu quero para mim seu amor, só porque/ Aceito seus erros, pecados e vícios/ Pois, na minha vida, meu vício é você”. Que coisa espetacular.

A faixa seguinte é Marina, de Dorival Caymmi. Um clássico. Dolores Sierra é a quinta música. Composição de Wilson Batista e Jorge de Castro. A faixa seis é um pot-pourri: Fica Comigo Esta Noite (Adelino Moreira/Nelson Gonçalves), Meu Dilema (Adelino Moreira), Escultura (Adelino Moreira/Nelson Gonçalves) e Pensando Em Ti (Herivelto Martins/David Nasser). A sétima faixa é outro pot-pourri, desta vez é para arrebentar a alma. Outras duas músicas da parceria Herivelto Martins e David Nasser: Carlos Gardel e Vermelho 27. A última é um clássico no vozeirão do Nelson.

Voltando ao sul do Brasil, Nelson Gonçalves canta Cadeira Vazia, de Lupicínio Rodrigues. Lupi seria um gênio só por ter composto o hino do maior clube de futebol da região sul do país, mas ele foi além. Cadeira vazia é uma faca girando sem dó no peito. Esse trecho é para matar qualquer um:

Voltaste, estás bem, estou contente
Só me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração
Não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão.

Cadeira Vazia – Nelson Gonçalves

A nona faixa do disco é uma homenagem a Orlando Silva, que gravou Número Um, composição de Benedito Lacerda e Mário Lago. Além da qualidade das poesias, a voz do Nelson é monstruosa. É um absurdo o que esse cidadão cantava. Meu avô diria que ele não é um “cuspidor de microfone” como os que vemos hoje. Seu Mário tinha total razão. Em Número Um só ouvimos a voz de Nelson e o violão de Rafael Rebello.

Aliás, essa parceria assim se estendeu por algumas faixas seguintes como na clássica Naquela Mesa, composição do Sérgio Bittencourt, filho do Jacob do Bandolin. Aliás, Jacob completaria 100 anos neste 2021, dia 14 de fevereiro. Que letra sensacional. Que baita composição. Enfim… Essa ficou imortalizada na voz poderosa do Nelsão.

Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim

Naquela Mesa – Nelson Gonçalves

Chão de Estrelas, composição de Sílvio caldas e Orestes Barbosa passou por aqui no post sobre a Maysa. É uma letra estupenda. “Minha vida era um palco iluminado / Eu vivia vestido de doirado / Palhaço das perdidas ilusões / Cheio dos guizos falsos da alegria / Andei cantando a minha fantasia / Entre as palmas febris dos corações”.

O disco prossegue com Cartola e As Rosas Não Falam. Cartola poderia pintar por aqui outra hora. É um dos gênios da nossa música. As Rosas Não Falam é um clássico. Uma sensibilidade tremenda.

Depois de Cartola outro pot-pourri. Desta vez Nem As Paredes Confesso, composição de Artur Ribeiro, Ferrer Trindade e Maximiano de Souza e Só Nós Dois, do Joaquim Pimentel. “Que falem não nos interessa / O mundo não nos importa / O nosso mundo começa / Cá dentro da nossa porta”. A faixa seguinte é Onde anda Você, de Vinícius de Moraes e Hermano Silva. Outro hino da MPB.

Renúncia, composição de Roberto Martins e Mário Rossi é a 15ª música do disco. A faixa seguinte, Spot Light – de Maurício Duboc e Carlos Colla; é uma das minhas preferidas deste disco.

Quer me dar o prazer senhorita?
De dançar comigo esta canção tão bonita
Faz de conta que eu sou Fred Astaire e você Ginger Rogers
Faz de conta que a vitrola é uma orquestra
E esse quarto um imenso salão
Faz de conta que a luz do abajur é a luz de um spot light
E eu estou dançando com você…
Strangers in the night

Spot Light – Nelson Gonçalves

O disco vai para a sua parte final com As Vitrines, do Chico Buarque, Matriz ou Filial, Lúcio Cardim, a clássica Negue composta por Adelino Moreira e Enzo Almeida Passos e se encerra com a imortal A Volta do Boêmio, outra composição do Adelino Moreira. É uma letra tão incrível que é um crime postar só uma parte dela. Então, ouçam e prestem atenção. Vale a pena.

Encerro lembrando que Normalista, outro ícone da carreira do Nelson não está neste disco, mas é preciso ouvir. Renúncia, em parceria com o Tim Maia é uma coisa fora de série. São dois vozeirões imensos cantando uma letra sensacional. Enfim, passeiem pela discografia desse monstro da música brasileira. Vocês vão se encantar e se surpreender.