Feitoria!

photo of man laying on sidewalk

Se vocês fossem estacionar o carro no terreno baldio aqui ao lado do prédio nos últimos 13 anos vocês fatalmente ouviriam esse grito quando fossem se aproximando do carro antes de irem embora. Lá vinha o Geovane pedir uma moeda, um cigarro, uma ajuda. Geovane era para alguns o Maluco. Para outros o Feitoria. Para outros o Geovane.

Meus pais se mudaram para Porto Alegre em 2006. Em 2008 o Geovane começou a ficar aqui no terreno ao lado do prédio. Lembro de uma vez meus pais tirarem um edredom que estava na cama deles para darem ao “maluco”. Estava frio e nós tínhamos como nos aquecer. Foram várias vezes nestes últimos 13 anos que ele pediu dinheiro, cigarro, um prato de comida, roupa. Não era uma relação simples, fácil, mas havia respeito e atenção.

Geovane tinha família, pelo que me consta esposa e filho, ou filhos. Aconteceu alguma coisa que ele decidiu sair de casa. Resolveu morar na rua. Um cunhado chegou a vir buscar ele uma vez. Passou uns dias, menos de uma semana, e ele já estava de volta. Tentou montar um empreendimento com “amigos” que apareceram. Resumindo. Outros caras queriam tirar a pouco dinheiro que ele ganhava no estacionamento improvisado no terreno baldio ao lado do prédio. O ponto é bom.

Geovane era querido pelos vizinhos. Cuidado, até certo ponto. Havia reclamações, conflitos, claro. A vida em vizinhança é assim. Mas também tinha a preocupação se ele estava bem, se estava protegido da chuva, do frio, se havia comido. E, sendo honesto, rolava um trocado para a cachaça. Não seria justo privá-lo desse prazer pelo fato de morar na rua. Eu sempre tive muito medo de que alguma coisa acontecesse com ele. Medo de, em uma condição vulnerável, fosse atacado por algum “ser”.

Nos últimos dias o Geovane estava mais quieto. Ontem minha mãe o achou mais triste. Ele se drogou na última noite. Dividiu uma pedra de crack com outra moradora aqui próximo ao dilúvio. Hoje de manhã estava dormindo próximo a entrada do prédio, em frente a uma oficina que tem aqui perto. Por volta do meio-dia um dos funcionários da oficina falou com ele. Comentou de ele estar dormindo no sol. Era mais um cuidado com ele do que uma reclamação.

Enfim, na tarde desta quinta-feira, aos 50 anos, completados no último mês de outubro, Geovane, o feitoria, o maluco, faleceu. Seu corpo ficou até o começo da noite enrolado um saco de plástico bolha e uma coberta marrom. A Samu, que chegou a ser chamada, atestou a morte e arrumou o corpo, que foi recolhido por volta das 19h 30. Isso é o que eu sei sobre o meu vizinho.

Aí a notícia carece de exatidão (…)
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.”

Notícia de Jornal – Chico Buarque