“Me dá um calmante e diz que é pra eu ser bom” – Cazuza

Foto: Divulgação/ Site Oficial

Acordei depois de parcas horas de sono e pensei em escrever sobre o Chico Buarque. Tenho um CD duplo dele lançado lá pelos idos de 2007. Dei bom dia para a Alexa e ela me respondeu que hoje, 19, estariam de aniversário Nara Leão e Janis Joplin.

Pensei em manter o texto sobre o Chico, lembrei do show da Fernanda Takai baseada na obra da Nara, mas acabei indo ouvir Janis. Com isso lembrei da influência dela no trabalho do Cazuza e o texto sobre o disco do Chico acabou indo para o espaço.

Cazuza faleceu em 1990, eu tinha 4 anos, então todas as minhas lembranças dele vivo me soam memórias criadas, não reais. Meu contato com a obra do Cazuza era superficial até 2004, quando foi lançada a cinebiografia do cantor carioca – dirigida por Sandra Werneck e Walter Carvalho com Daniel de Oliveira como protagonista.

Eu não sei o que o meu corpo abriga
Nessas noites quentes de verão
E nem me importam que mil raios partam
Qualquer sentido vago de razão

Down Em Mim – Cazuza

É um dos meus filmes favoritos. A interpretação do Daniel é espetacular. Enfim, não vou falar do filme. A missão aqui vai ser escolher um disco. Cazuza foi um dos integrantes fundadores do Barão Vermelho. O primeiro vocalista da banda e o principal letrista, pelo menos até 1985, quando se desligou da banda e partiu para carreira solo.

Eu pensei em começar falando da trajetória do Cazuza no Barão. Só que o primeiro disco da banda já está aqui no blog no post exclusivo sobre o grupo. Estarei assim pulando uma das melhores, se não a melhor música do Cazuza. A letra de Down em mim, baseada em Down on Me, da Janis, junto com a interpretação visceral do Cazuza é de arrepiar.

Hoje eu acordei com sono e sem vontade de acordar
Como pode alguém ser tão demente, porra louca
Inconsequente e ainda amar, ver o amor
Como um abraço curto pra não sufocar
Ver o amor como um abraço curto pra não sufocar

Bilhetinho Azul – Cazuza

Bom, Cazuza foi uma máquina de grandes canções. No primeiro disco do Barão tem, além da já citada, tem Billy Negão, Ponto Fraco, Todo Amor Que Houver Nessa Vida, Bilhetinho Azul, entre outras. No segundo álbum aparecem Pro Dia Nascer Feliz, Carente Profissional, Blues do Iniciante, Carne de Pescoço.

 O terceiro disco, de 1984, apresenta um dos grandes sucessos do Barão: Maior abandonado.  O disco também tem Por que A Gente é Assim?, Dolorosa, Nós e Bete Balanço. Estranho, mas eu realmente não me empolgo com Bete Balanço. Coisas da vida. Antes de sair da banda, em 1985, Cazuza participou de um show épico no Rock in Rio. Naquele ano ele lançaria Exagerado, seu primeiro disco solo.

Em Exagerado são lançadas Codinome Beija-Flor e Só As Mães São Felizes, quero destacar aqui Mal Nenhum, primeira parceria de Cazuza com Lobão, Medieval II, Boa Vida e Desastre Mental. Enfim, ouçam o disco todo.

Em 1987 Cazuza lança Só se For a Dois. Disco tem hits como Nosso Amor a Gente Inventa e Solidão Que nada. O álbum conta com Culpa de Estimação. Um hino! Preciso lembrar aqui Vai à Luta, Quarta-feira e O Lobo Mau da Ucrânia. É neste mesmo ano que o cantor descobre ser portador do vírus da AIDS. A doença acaba ampliando a sua produção. Cazuza tinha sede de viver.

Lançado em abril de 1988, Ideologia é um disco pesado. Não no sentido sonoro, mas no conteúdo. A faixa título é um manifesto seguido por Boas Novas. “Eu vi a cara da morte e ela estava viva”. Brasil é um outro hino composto por Cazuza. O disco ainda conta com Vida Fácil, Blues da Piedade, Faz Parte do Meu Show. Enquanto a vida se esvaia, Cazuza evoluía como compositor tornando sua mensagem cada vez mais potente.

Ainda em 1988, cada vez mais debilitado pela AIDS, Cazuza faz um show que vira disco ao vivo com direção de Ney Matogrosso. Uma das coisas mais sensacionais da música brasileira. Na abertura uma canção de Lobão que virou marca de Cazuza: Vida Louca Vida. Além de regravações de seus sucessos, o cantor carioca lançou O Tempo Não Para. Uma pancada.

Seu último álbum lançado em vida foi Burguesia. Disco duplo com vinte faixas. É um claro disco de despedida. Mesmo compondo de maneira alucinada, Cazuza fez algumas regravações nesse disco. Como Quase Um Segundo, do Paralamas, Esse Cara, do Caetano Veloso, Cartão Postal, de Rita Lee e Paulo Coelho. O disco póstumo, Por Aí, lançado em 1991, apresenta registros inéditos e regravações, como de Camila, Camila, do Nenhum de Nós, Cavalos Calados, do Raul Seixas, e Summertime, eternizada por Janis Joplin.

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe, é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam um país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

O Tempo Não Para – Cazuza

Embora tenham letras sensacionais, os dois últimos registros de Cazuza não me empolgam. É compreensível que a voz já estivesse falhando. Cazuza gravou em cadeira de rodas o álbum Burguesia. Foi um grande feito, mas a qualidade da gravação não é boa, mesmo tendo letras sensacionais. Destaco Burguesia, Garota de Bauru, Cobaias de Deus, Mulher sem Razão, Azul e Amarelo.