Um post perdido

gray asphalt road surrounded by tall trees

Faz um mês que a Daiane sentiu os primeiros sintomas de Covid-19. Eu tive os primeiros sintomas um dia depois. Não quero falar de Covid. Não que eu não ache importante ou que eu me ache imune. Pelo contrário. Tenho redobrado todos os cuidados. Só saio de casa para ir visitar a Dai no hospital. Chego e vou direto ao banho. Tenho usado mais álcool gel do que nunca. Ninguém sabe como o Sars-Cov-2 vai reagir em determinado organismo. Eu tive apenas sintomas gripais. Sai da Covid sem tomar nenhum remédio ineficaz indicado pelo governo. Ah! Deve ser meu histórico de sedentário.

É muito estranho tudo isso que está acontecendo. Esse mês foi uma loucura. Faz três semanas que a Dai está no hospital. Ela faz muita falta nessa casa. Sabe o que é todos os programas que vocês gostam de olhar juntos perderem a graça? Não tenho mais a mesma empolgação para nada. Cansaço batendo forte. Acho que é o estado de alerta para ter notícias novas delas. Medo de ter notícias ruins. Só darei a guerra como vencida depois que a Daiane estiver em casa novamente, junto com as pequenas.

A vida em casa com covid-19

Sábado ela chorou muito. É complicado fazer a Dai parar. Ela é agitada demais. Senti naquele choro todo o peso da doença. De tudo o que ela está passando sem merecer. Tem que ter algum motivo. Tem que ter alguma explicação. Um dia saberemos. Ela tem sido muito forte. Conseguir tocar nela no domingo foi uma coisa muito especial. Sentir a pele dela. A psicóloga dela deu uma ótima ideia na sexta-feira. Assim que eu pudesse me aproximar dela, usar um dos óleos que ela gosta. Dar um ar de casa para ela. Vai ser bom. Testarei isso nos próximos dias.

No domingo, mais próximos, comentei que ela havia sido notícia no O Globo. A cara dela foi de surpresa e curiosidade. Vou ter que contar as coisas com calma para ela. A Daiane me perguntou só quanto tempo estava no hospital. Em coma, sedada, foram duas semanas. Ela está perdida no tempo. Perguntou do trabalho. Eu já falei que é difícil prender ela? Fazer ela desligar? Então… Outro dia o Uber que eu peguei comentou que a mulher estava internada na UTI de um hospital de Porto Alegre. Ele e ela idosos. Quando estávamos chegando ele recebeu uma ligação do médico. Temi que ela havia falecido. Graças a deus não, mas foi entubada. Isso tem um peso gigantesco. Sai sem saber direito como agir.

Logo que a Dai foi para o hospital eu só lembrava do grito daquela guria na virada de ano dizendo “é só me entubar”. Ela não tem noção do que estava falando. A intubação é um processo invasivo. Sair da intubação é incômodo. Os médicos tentaram retirar os sedativos da Dai por uma semana, mas ela seguia agitada. A solução foi fazer um procedimento cirúrgico, uma traqueostomia. Depois disso ela evoluiu muito rápido. Espero em breve ela estar em casa. Acredito que isso deva acontecer entre o final desta semana e o meio da próxima. E eu não ia falar de Covid.

Sabem o que é tentar fugir de um assunto e ser dragado por ele? Abro o twitter e vejo o descaso do governador Eduardo Leite, pressionado pela crise econômica do estado e a crise sanitária do país. A incompetência vem de Brasília, que não dá suporte para o povo se proteger do vírus. Bolsonaro é um assassino. Sente prazer com a morte. Não é à toa que estamos a 23 dias batendo recorde de mortalidade por covid no país. A abertura do comércio em Porto Alegre, e no Rio Grande do Sul, será um desastre. Todos sabem.

Tentando fugir desse assunto que me draga, abro os sites de notícias. No UOL, média de 2.255 mortos por dia de Covid-19. Vigésimo terceiro dia de recorde. Ator e humorista Paulo Gustavo intubado. Branco, lateral tetracampeão do mundo, intubado. Agnaldo Timóteo em estado grave. É duro ver pessoas brincando com a saúde das outras. Falta equipamento, estrutura e profissionais, mas também falta conscientização, compaixão e empatia. Não é possível que as pessoas não entendam que a melhor maneira de não se contaminar é ficando em casa? É evitando reunião de pessoas? É o isolamento?

Estou a quase três semanas sozinho em casa. Primeiro para me curar da minha covid. Depois porque a minha companheira estava no hospital. As músicas, que tanto marcam, ganham outro tom. Logo que a Dai foi intubada eu estava com uma música grudada na minha cabeça. Como dizia o mestre. Canção do Benito Di Paula lançada em 1975. Ela abre com “É, acaba a valentia de um homem/ Quando a mulher que ele ama, vai embora/ É, tanta coisa muda nessa hora/ Que o mais valente dos homens chora”. Só tinha um problema. Eu não queria cantar ela. A Dai não tinha ido embora. A Dai não iria embora.

Isso durou uns dois dias, mas parece que foi uma eternidade. Até que num domingo eu acordei com Anunciação, do Alceu Valença na cabeça. Ela tocou muito naquele domingo. Outra canção que começou a tomar conta foi Tô Voltando, da Simone. Essa foi citada em um comentário no facebook e ficou rodando por muito tempo na caixa de som aqui de casa. Como a música faz companhia em momentos delicados da vida da gente. Bom, eu já dei um pequeno depoimento sobre isso.

No meio dessa confusão o que tem me confortado são as vídeo chamadas para meus pais e minhas irmãs. Coisas que aquecem o coração da gente. Tenho me flagrado mais falante também. Talvez seja a solidão, mas tenho enviado muito, mas muito mais áudio para as pessoas do que antes. Eu que não atendia ligação de número desconhecido e odiava atender o telefone, tenho feito isso com uma frequência assustadora. Talvez seja a maturidade, talvez seja a necessidade. Enfim. Amanheceu, é hora de dormir.

Post escrito na madrugada do dia 22 de março de 2021